Alexandre Romanès, escritor festejado e
artista de circo, ironiza o presidente francês e sua política de expulsão dos
roma do país
Anulados os contratos de vários artistas do Circo Cigano
Romanès, oriundos do Leste Europeu. Proibidos os números de menores, como
aquele no qual sua filha de 10 anos dança flamenco. O departamento de inspeção
do trabalho cobra do circo 19 mil euros em multas por supostos contratos
irregulares de músicos em espetáculos anteriores.
Não era claro como afetaria o destino do Circo Romanès a
decisão tomada pela Comissão Europeia na quarta-feira 29, de recorrer a ações
legais contra as deportações de roma (ciganos) realizadas pelo governo francês.
Segundo uma diretiva europeia de 2004, os roma são cidadãos europeus com
direito à livre circulação. Desde o fim de julho, Paris desmantelou numerosos
acampamentos ciganos e deportou mais de mil para a Romênia e Bulgária.
Durante a queda de braço entre Paris e Bruxelas, o poeta e
dono do circo cigano Alexandre Romanès, de 59 anos, parece tranquilo. O circo
cigano (Romanès não gosta do termo politicamente correto rom) abrirá suas
portas, se tudo correr bem, em novembro.
Sentado à mesa num dos trailers que circundam o pequeno
circo num bairro burguês ao norte de Paris, Romanès, ex-equilibrista e domador
de leões de ombros largos e olhar límpido, não demonstra o mínimo rancor quando
lhe pergunto como reage à política de expulsão adotada por Nicolas Sarkozy. Com
voz calma, retruca: “Meu francês é menos ruim que o dele”. Intriga a resposta.
Romanès nasceu e viveu a maior parte de sua vida na França. A prestigiosa
Gallimard publicou três de seus livros. Ele frequentou meios intelectuais dos
quais faziam parte, entre outros poetas, Jean Genet e Jean Grosjean.
Acha o francês de
Sarkozy ruim?
“Fui analfabeto até os 20 anos de idade. Sarkozy, presidente
com tamanho interesse em defender os valores franceses, no mínimo não deveria
dizer job, e sim travail.’’ O termo anglo-saxônico pronunciado à francesa
surgiu durante a campanha presidencial de 2007, quando Sarkozy martelou o
seguinte slogan: “É preciso trabalhar mais para ganhar mais”. E, óbvio, o
futuro presidente criaria des jobs (o “s” não é pronunciado). Romanès retruca:
“Agora os franceses trabalham mais para ganhar menos”.
De volta de Xangai, onde o circo representou a França na
Exposição Universal, Romanès foi informado que seus artistas do Leste Europeu
não poderiam trabalhar no novo espetáculo. Ficou perplexo porque os pedidos de
autorização de trabalho requeridos pela direção do circo haviam sido aceitos.
Além disso, o grupo fundado por Romanès e sua mulher, Délia, 17 anos atrás
nunca havia tido esse tipo de problema. Anualmente, os espetáculos recebem
elogiosas críticas de diários, do esquerdista Libération ao “sarkozista” Le
Figaro.
Os pedidos de regularização de empregos foram feitos antes
de Sarkozy lançar seu programa de expulsão dos roma, em julho. Em tese, cidadãos
da Romênia e da Bulgária, integrantes da União Europeia desde 2007, gozam, como
todos os europeus, do direito de livre circulação. Mas dez países da UE, entre
eles a França, impuseram limites legais a romenos e búlgaros. Na França, os
migrantes (e não somente os roma desses países) precisam ter autorizações de
residência e de trabalho até 2014. E nessa nova espiral de expulsões, Paris
estabeleceu que os ciganos não podem viver em solo francês por mais de três
meses. Segundo o governo, eles não têm dinheiro e representam uma ameaça à
ordem pública. Caso Paris não cesse as deportações, a Comunidade Europeia
recorrerá a ações legais já no próximo dia 15.
Se numerosos franceses tacitamente apoiam a nova medida
contra ciganos adotada pelo seu impopular presidente, considerável parte do
povo e da mídia ataca a nova política. Ela foca, segundo os opositores, uma
dita etnia – e, por tabela, é racista. Viviane Reding, comissária da Justiça da
UE, comparou as atuais expulsões àquelas durante a Segunda Guerra Mundial, quando
cerca de meio milhão de ciganos foram exterminados em campos de concentração.
A analogia enfureceu os governantes franceses. Pierre
Lellouche, secretário para Assuntos Europeus, disse, não sem arrogância, que a
França “é a mãe dos direitos humanos”. O nível caiu ainda mais quando Sarko
tomou a palavra. O presidente sugeriu que talvez Luxemburgo pudesse acolher os
ciganos. Reding é luxemburguesa.
“Sarkozy se dirige à multidão e, como sempre nesse tipo de
discurso, reina uma enorme falta de finesse”, argumenta Romanès. “O presidente
deveria fazer uma guerra contra a pobreza, não contra os -pobres.” Segundo o
poeta, a maioria de ciganos franceses trabalha, mas ele concorda que há um
elevado nível de mendigos na comunidade. Isso se deve em grande parte ao fato
de os ciganos sequer obterem autorização para trabalhar.
Délia, sua mulher, trocou a Romênia do ditador Ceausescu
pela França, onde conheceu o marido 25 anos atrás. Nunca deixaram de trabalhar.
Délia, a Terrível (seu nome artístico) só recebeu seu documento de identidade
francesa no ano passado. Avalia Romanès: “Estamos no país dos documentos”. Para
cantar no metrô, por exemplo, é preciso uma autorização. “E nos dizem: ‘Vocês
são um bando de ladrões’.”
Outro dia, um gadjo (não-rom) num restaurante perguntou a
Romanès se os ciganos são mesmo inconfiáveis e “terríveis”. Ele rebateu: “Sim,
eu sou. Mas vocês, gadjos, inventaram a Inquisição, duas guerras mundiais, a
câmara de gás, a bomba atômica, saquearam o continente africano…”
Romanès começou a trabalhar aos 13 anos para a família
Buglione, dona de um dos maiores circos europeus. Sete anos mais tarde,
preferiu ser equilibrista nas ruas de Paris. Certo dia, um senhor apresenta-se.
Responde por Jean Genet, poeta entre os mais vagabundos. “Era um homem gentil, exalava
uma espécie de santidade”, costuma dizer Romanès à imprensa. Acrescenta que só
teve esse mesmo sentimento pelo violinista norte-americano Yehudi Menuhin,
outro amigo.
Na nossa conversa Romanès fala de outros poetas cujos
talentos “serão reconhecidos”. Jean Grosjean, falecido em 2006, é um deles.
Quiçá Romanès tenha cansado de ser apresentado na mídia como o equilibrista
cigano amigo de Genet. Uma associação que lhe confere o respeitável rótulo de
intelectual anticonformista.
Grosjean prefaciou o seu segundo livro de poesias, Paroles
Perdues (2004). Anotou Grosjean: “Alexandre faz parte de um povo para o qual
palavras têm maior peso que o escrito. Ele nos adverte: escrever não é uma
tradição cigana. No entanto, ei-lo adentrando com violência o mundo das letras.
Ele tem algo a dizer às pessoas que leem”. Romanès “tem consciência de que vive
sob o céu”. Como, pergunta Grosjean, “estar sob o céu e não ver o céu?”
Romanès dedica Paroles à poeta Lydie Dattas, que o ensinou a
escrever. O poeta cigano lembra: “Ela me mostrou a frase que ecoa como o vento
na vela”. Naqueles anos 1970, ele abandona os números de equilibrismo para se
dedicar à música barroca. Logo seu alaúde ressoa em igrejas. Romanès
chamava-se então Alexandre De Angelis.
Apesar da poesia e da música houve brigas, prisões. Quando
outra ex-mulher, uma cigana espanhola, raptou sua filha Adelle na Itália,
Romanès a recuperou, mas acabou preso em Nápoles. No cárcere, constata dois fatos: “A
vasta maioria dos presos é pobre; e os italianos não sabem cozinhar mal, mesmo
para os prisioneiros”.
Rose, de 10 anos, entrou no trailer no fim de nossa
entrevista. Menina solar, olhos claros. Logo sentou no colo do pai, orgulhoso.
Ela fala três línguas, tem professora particular que lhe ensina francês,
flamenco e contorcionismo. “Só deixaria minhas filhas irem à escola se fossem
cantando”, esclarece o pai. Mas a escola não seria uma forma de integrá-las na
sociedade? “Somos nômades. Nosso circo é itinerante, não estamos atrás do
sucesso social. Queremos trabalhar o suficiente para viver – e não viver para
trabalhar.”
Nem todos os ciganos pensam da mesma forma. Os menos
tradicionais escolheram uma vida burguesa. Outros foram forçados a ter vida
sedentária durante o comunismo. Naqueles tempos trabalhavam nas fábricas. E
foram os primeiros a não se integrar na economia de mercado. Vítimas de racismo
ainda maior a Leste que a Oeste, deslocaram-se para países ricos como a França.
Buscam pequenos empregos que estão sendo eliminados pela globalização.
Romanès, cuja família trabalha em circo há dois séculos,
conta que os ciganos sofreram na virada do século XIX para o XX. À época,
produziam lâminas para facas e espadas e comercializavam cavalos. Porém,
espadas foram substituídas por fuzis e cavalos por automóveis. Em Sur L ’Épaule, Romanès se vê
como o “idiota do vilarejo, alguém que se interessa pelas árvores, aves e pela
poesia”. A caravana do Circo Romanès continua a avançar e a resistir aos
avanços do tempo. E aos preconceitos do governo francês.
Fonte:
http://www.cartacapital.com.br/internacional/o-cigano-vs-sarkozy-2/