quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


O Povo Cigano


Cerca de um milhão de ciganos vivem hoje no território brasileiro. Chegaram aqui por volta de 1574 vindos da Europa, mas não se sabe muito bem de onde e nem como eles surgiram no mundo. Alguns pesquisadores afirmam que vieram do sul da Índia. Outros dizem que vieram da Pérsia ou da Caldéia, na região onde hoje se localiza o Irã. O fato é que os ciganos, segundo suas próprias tradições, não têm pátria. E se sentem estrangeiros até mesmo nos países em que nascem.



 Na Bahia, visitei quatro comunidades para conhecer melhor essa cultura e fotografá-la. Em todos os grupos com os quais tive contato, os próprios integrantes não sabem ao certo dizer quantos ciganos formam a comunidade. É um povo arredio e desconfiado, mas que aos poucos foi se abrindo para a possibilidade de ser fotografado.



Em geral, o cigano é vaidoso, e não se deixa fotografar de qualquer jeito. Essa característica é ainda mais presente nas mulheres. É quase impossível registrar um instantâneo do cotidiano feminino, aquele famoso “flagra” que muitas vezes produz belas e inesperadas fotos. Todas as vezes que tentei essa abordagem, elas gritaram, puseram a mão no rosto e me rogaram pragas. Por sorte, elas me perdoaram mais tarde.



Para fotografar uma mulher cigana, é preciso se submeter ao ritual da feminilidade. Primeiro elas põem o vestido mais novo e bonito, cujo colorido se une às cores fortes do mobiliário e das tendas que servem de casa. Em seguida, penteiam demoradamente os lindos cabelos, mantidos sempre longos como manda a tradição. Por fim, passam batom nos lábios e decidem o local onde serão fotografadas. Aí então, olham diretamente para a câmera, numa postura que nos faz pensar: o povo cigano quer mostrar sua beleza e seu valor como qualquer ser humano, que tem sonhos, desejos e necessidades.



 E essas necessidades não são poucas. Mas eles sobrevivem com muita dignidade e força de vontade. O fato de viver em bando facilita. E a palavra bando aqui não tem nenhum sentido pejorativo. É um conjunto de famílias vivendo juntas, seguindo princípios igualitários e buscando se organizar de forma simples, num sistema de liderança pouco formalizado. Nessas comunidades, o cigano nunca está sozinho. Os conflitos existem, mas o senso de comunidade fala mais alto. Quando surge uma dificuldade que afeta o grupo, o elo se fortalece. E todos se mobilizam para encontrar uma solução.



 A união se revela também nos momentos festivos. Um dos maiores exemplos é o casamento, o evento mais esperado e comemorado na cultura cigana. É mais comemorado até do que os festejos de 24 de maio, dia de Santa Sara Kali, a padroeira dos Ciganos. Prova disso é que as festas de casamento duram cerca de três dias. Sempre com muita bebida e comida para toda a comunidade.



Na cultura cigana, os filhos casam cedo. Geralmente entre 14 e 17 anos. É o momento em que param de estudar, vão cuidar da família e administrar o dote, quantia em dinheiro que o pai da noiva oferece ao noivo para o casal começar a vida. Só depois das festividades é que os noivos dormem juntos. Dias depois, a família do noivo exibe para a comunidade o lençol branco com marcas do sangue, numa demonstração da honra da noiva.



 Diferente de outros povos, onde cultura e religião se confundem, os ciganos fazem uma distinção clara entre esses dois aspectos. Segundo eles, “ciganismo” não é religião. A maioria dos ciganos, por exemplo, é católica, embora muitos frequentem também as igrejas evangélicas. Segundo eles, a condição de ser cigano é um modo de vida, associado sobretudo a uma condição nômade, com regras de comportamento muito bem definidas.



 Os novos tempos, no entanto, levaram alguns grupos a adaptações em seu estilo de vida. “A violência cresceu muito. Não dá para acampar em qualquer lugar. É preferível construir nossas próprias casas e fincar os pés no chão”, explica o líder da comunidade de aproximadamente 600 ciganos que ocupam cinco quarteirões na periferia de Utinga, cidade localizada na Chapada Diamantina, a 420 quilômetros de Salvador. Lá, nenhum cigano mais mora em tendas ou cabanas.



 Já no Recôncavo Baiano, o nomadismo ainda resiste. Os ciganos vivem mudando seus acampamentos, se revezando entre a Ilha de Itaparica e outras localidades no entorno da Baía de Todos os Santos. Foi essa a região onde meu olhar mais se deteve, resultando nesse ensaio fotográfico que apresento aqui.



O convívio com esse povo me ensinou sobretudo a importância de perseverar. E foi o que eu busquei fazer quando 17 filmes cromo 120, fotografados nas comunidades ciganas, e enviados para revelação no Rio de Janeiro, foram extraviados pelos Correios. Até hoje não tenho notícia deles. Mas o aprendizado que tive é que todas as adversidades a gente pode superar. Essa talvez tenha sido a lição mais importante. Sou grato ao povo cigano. E ao Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, sem o qual este projeto não teria sido possível.



Um especial obrigado a Maicyra Leão, que com seu sangue cigano, pacientemente me acompanhou de coração aberto, me confortou e demonstrou seu carinho por mim, pelo projeto e pela vida.





Primeiro Casamento tradição Cigano em Sousa


Sousa é palco do 1º Casamento nas tradições Ciganas no Brasil.


Realizou-se na noite desta sexta-feira (30/11) o casamento dos jovens ciganos, Pedro Bernadone Lacerda de Figueiredo e Marcilânia Gomes Alcântara.


De origem Calon, nascidos e criados aqui em Sousa, forma prometidos desde o nascimento pelos pais em casamento. Não que seja uma obrigação casarem-se mediante essa promessa, mas os pais muito amigos costumam idealizar essa possibilidade.


 O casamento cigano foi celebrado pela cigana indiana, Yáskara Guelpa, que veio de São Paulo para ser madrinha do casamento católico e realizar o ritual cigano de união matrimonial.



Belíssimas as palavras do Pe. Elias quando parabenizou os noivos pelo desejo de manter e preservar os costumes do povo cigano, tendo ele próprio ido assistir a celebração cigana.

O ritual de união cigana é um momento mágico, cheio de simbolismos. Quem preside e invoca as bênçãos de Santa Sara Kali, padroeira dos povos ciganos do mundo é sempre uma cigana de idade, respeitada, querida e da confiança dos familiares dos noivos.



 Há velas, flores, incensos, pães, vinho, sal e frutas. Punhais são usados para simbolizar o laço de sangue que une os noivos pelo sangue dos pulsos e uma taça de vinho é bebida por ambos e em seguida quebrada pelo noivo - Da mesma forma que aquela taça uma vez estilhaçada jamais voltará a ser a mesma, os noivos a partir daquele instante não serão mais quem eram. Agora são um só corpo e uma só alma e nada os pode separar.

Santa Sara protetora dos partos, abençoa com seu manto azul sagrado a fertilidade e a fecundidade do casal para que tenham filhos saudáveis, bons e puros de alma e de índole, pede-se pela perpetuação da etnia e para que os ciganos jamais desapareçam.



Os Calon de Sousa só querem hoje é espaço para estudar, trabalhar e se integrar completamente a nossa sociedade sem perder suas tradições e costumes.

Que o exemplo dado por esse casal possa ser seguido e que muitos outros jovens ciganos possam ter a felicidade de viver uma noite mágica, um casamento abençoado pela luz da lua cheia e uma vida plena e digna sob a proteção Santa Sara Kali.