O Povo Cigano
Cerca de um milhão de ciganos vivem hoje no território brasileiro. Chegaram aqui por volta de 1574 vindos da Europa, mas não se sabe muito bem de onde e nem como eles surgiram no mundo. Alguns pesquisadores afirmam que vieram do sul da Índia. Outros dizem que vieram da Pérsia ou da Caldéia, na região onde hoje se localiza o Irã. O fato é que os ciganos, segundo suas próprias tradições, não têm pátria. E se sentem estrangeiros até mesmo nos países em que nascem.
Em geral, o cigano é vaidoso, e não se deixa fotografar de qualquer jeito. Essa característica é ainda mais presente nas mulheres. É quase impossível registrar um instantâneo do cotidiano feminino, aquele famoso “flagra” que muitas vezes produz belas e inesperadas fotos. Todas as vezes que tentei essa abordagem, elas gritaram, puseram a mão no rosto e me rogaram pragas. Por sorte, elas me perdoaram mais tarde.
Para fotografar uma mulher cigana, é preciso se submeter ao ritual da feminilidade. Primeiro elas põem o vestido mais novo e bonito, cujo colorido se une às cores fortes do mobiliário e das tendas que servem de casa. Em seguida, penteiam demoradamente os lindos cabelos, mantidos sempre longos como manda a tradição. Por fim, passam batom nos lábios e decidem o local onde serão fotografadas. Aí então, olham diretamente para a câmera, numa postura que nos faz pensar: o povo cigano quer mostrar sua beleza e seu valor como qualquer ser humano, que tem sonhos, desejos e necessidades.
E essas necessidades não são poucas. Mas eles sobrevivem com muita dignidade e força de vontade. O fato de viver em bando facilita. E a palavra bando aqui não tem nenhum sentido pejorativo. É um conjunto de famílias vivendo juntas, seguindo princípios igualitários e buscando se organizar de forma simples, num sistema de liderança pouco formalizado. Nessas comunidades, o cigano nunca está sozinho. Os conflitos existem, mas o senso de comunidade fala mais alto. Quando surge uma dificuldade que afeta o grupo, o elo se fortalece. E todos se mobilizam para encontrar uma solução.
A união se revela também nos momentos festivos. Um dos maiores exemplos é o casamento, o evento mais esperado e comemorado na cultura cigana. É mais comemorado até do que os festejos de 24 de maio, dia de Santa Sara Kali, a padroeira dos Ciganos. Prova disso é que as festas de casamento duram cerca de três dias. Sempre com muita bebida e comida para toda a comunidade.
Na cultura cigana, os filhos casam cedo. Geralmente entre 14 e 17 anos. É o momento em que param de estudar, vão cuidar da família e administrar o dote, quantia em dinheiro que o pai da noiva oferece ao noivo para o casal começar a vida. Só depois das festividades é que os noivos dormem juntos. Dias depois, a família do noivo exibe para a comunidade o lençol branco com marcas do sangue, numa demonstração da honra da noiva.
Diferente de outros povos, onde cultura e religião se confundem, os ciganos fazem uma distinção clara entre esses dois aspectos. Segundo eles, “ciganismo” não é religião. A maioria dos ciganos, por exemplo, é católica, embora muitos frequentem também as igrejas evangélicas. Segundo eles, a condição de ser cigano é um modo de vida, associado sobretudo a uma condição nômade, com regras de comportamento muito bem definidas.
Os novos tempos, no entanto, levaram alguns grupos a adaptações em seu estilo de vida. “A violência cresceu muito. Não dá para acampar em qualquer lugar. É preferível construir nossas próprias casas e fincar os pés no chão”, explica o líder da comunidade de aproximadamente 600 ciganos que ocupam cinco quarteirões na periferia de Utinga, cidade localizada na Chapada Diamantina, a 420 quilômetros de Salvador. Lá, nenhum cigano mais mora em tendas ou cabanas.
Já no Recôncavo Baiano, o nomadismo ainda resiste. Os ciganos vivem mudando seus acampamentos, se revezando entre a Ilha de Itaparica e outras localidades no entorno da Baía de Todos os Santos. Foi essa a região onde meu olhar mais se deteve, resultando nesse ensaio fotográfico que apresento aqui.
O convívio com esse povo me ensinou sobretudo a importância de perseverar. E foi o que eu busquei fazer quando 17 filmes cromo 120, fotografados nas comunidades ciganas, e enviados para revelação no Rio de Janeiro, foram extraviados pelos Correios. Até hoje não tenho notícia deles. Mas o aprendizado que tive é que todas as adversidades a gente pode superar. Essa talvez tenha sido a lição mais importante. Sou grato ao povo cigano. E ao Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, sem o qual este projeto não teria sido possível.
Um especial obrigado a Maicyra Leão, que com seu sangue cigano, pacientemente me acompanhou de coração aberto, me confortou e demonstrou seu carinho por mim, pelo projeto e pela vida.
















.jpg)




.jpg)